António é um amigo. Trabalha num restaurante à beira da estrada.
A história de António não é alegre. Porque não vos hei-de contar a história de um menino feliz? Uma história alegre?
Mas António está ali. Ali, no meio de todos nós. É criança e trabalha.
Tem o pai doente. Muitos irmãos.
A primeira vez que o vi foi num dia quente de Verão. Um calor de escaldar.
Comoveu-me a sua delicadeza. Um pouco gago e querendo, na sua gaguez, dizer tanta palavra amável, boa. Os olhos piscos a tremerem, passarinhos espantados.
Há quem se ria dos gagos. E, afinal, um susto que apanhássemos em criança, um modo mais delicado de olhar a vida podem dar-nos essas pausas na voz, essa distância entre a palavra que se vai dizer e o pensamento.
As pessoas que vão comer ao restaurante vão comer bem. Olham a ementa e não olham o António. Olham a conta e não olham o António.
E o António tem fome: não da comida do restaurante, mas de ternura, de palavras boas.