A descoberta é o desvendar das emoções. O “eu” é o interior onde se escondem todos os sonhos, todos os pensamentos, todas as mágoas e nostalgias. É a descoberta de alguém que se esconde atrás de um pano preto, fugindo à revelação da vida e a todas as realidades por descobrir. As realidades que puxam a arte interior do ser humano, ou talvez o interior da arte do ser humano. Essa arte que se reflete num quadro mal pintado, palavras mal ditas, acções mal feitas, lágrimas mal desenhadas, pegadas mal construídas.
A arte que o “eu” vive é a arte da vida, a transcendência do ser humano no tempo. Todos nós somos a arte, e o mundo é o pintor, é ele que desenha e pinta os nossos quadros, desde que nascemos, vivemos e morremos e, mais tarde, essa arte vai ser observada por todos, vão-se descobrindo os sonhos, as mentiras e tudo o que faltou pintar. Cada momento terá a sua cor, porque afinal a arte “é a tentativa de abrir uma porta, a tentativa de puxar por um fio invisível” (José Tolentino Mendonça, 2011). Uma porta é um caminho e as cores levam-nos a ele, todos os dias.
Há tanto para construir e para descobrir. O “eu” é uma descoberta e, se nos descobrirmos a nós próprios, pode nascer a mágoa por termos sido aquela arte que fez chorar, a arte que não foi verdadeira, a arte que nos estendeu a passadeira vermelha para a transcendência. Não podemos voar se não temos asas, por isso não podemos pintar o que não somos.
Atravessámos essa passadeira vermelha para encontrar o transcendente, esse que constrói a ausência do nosso ser, que nos faz querer tocar no horizonte sem o sentir. A grande diferença entre o ser humano e a arte é que o ser humano não é desvendado e esconde, enquanto a arte nos leva à ausência.
Filipa Eça Fonseca, nº13 - 11º6
Reflexão sobre o “eu”, a arte e a transcendência,
produzida numa aula de Literatura Portuguesa