Arte e transcendência

A arte é a maneira mais profunda de nos levar à transcendência. E por transcendência digo a descoberta: a descoberta do “eu” e a descoberta de quem verdadeiramente somos.
Quem nunca, pelo simples tocar de uma sinfonia, acreditou saber quem era e saber o que queria? E quem nunca, ao ler a poesia de algum grande artista, acreditou que naquele momento tinha atingido a plenitude e a harmonia que pensava nunca poder atingir? A arte tem coisas destas, trabalha o que temos dentro de nós mas trabalha também aquilo que achamos que não temos ou que pensamos nunca conseguir encontrar. 

É por isto que penso que devemos muito à arte.  É pela arte que sabemos, sem qualquer dúvida, que sentimos, não que o não soubéssemos sem arte, mas pela música, pela observação de uma pintura ou até mesmo pela leitura de um livro ficamos com a noção de que o artista conseguiu expor de algum modo aquilo que queremos expor mas não conseguimos.
Mas o artista consegue. Porque aquele que é artista tem a capacidade de procurar dentro de si aquilo que não sente, ou aquilo que sente e não sabe explicar de uma maneira comum - porque nem tudo é para ser expresso assim - existem ‘coisas’ dentro de nós que precisam de ser levadas ao ponto em que já não estão dentro de nós mas que também não estão fora de nós. Nesse momento em que acabam de ser levadas, as coisas tornam-se nós ou nós tornamo-nos as coisas… quem sabe?
O que se sabe é que uma simples composição musical ou simples palavras bem escritas (que tenham no seu interior a missão de nos levar a uma revelação) têm o poder de nos fazer ganhar o balanço e a harmonia que procurávamos dentro de nós desde que sabemos quem somos.
Acredito que a cada pedacinho de verdadeira arte que vai sendo exposta ficamos cada vez mais próximos da nossa própria revelação. Basta sabermos como a interiorizar e sabermos que melhor que qualquer outra coisa a arte pode definir-nos mas não nos limita. É necessária a questão: o que seria de nós sem arte? 
Ana Lourenço, 11º6, nº3, aluna de Literatura Portuguesa
(Reflexão sobre a identidade, a arte e a transcendência produzida após o estudo de Aparição, de Vergílio Ferreira)