SETE DÉCADAS HUMANAS

O avô trabalhava nos Correios com a avó quando eram jovens. O amor nasceu entre eles tão naturalmente quanto uma flor nasce no campo e, ainda assim, a avó se pergunta como pode ter tal acontecido num contexto tão imprevisível. Poucos metros separavam as suas casas do local de trabalho. Percorriam esse percurso sozinhos, ambiciando a presença do outro. Quando a avó via o avô, um Paraíso incerto crescia dentro dela. Os seus limites eram feitos de dúvidas e inseguranças entrelaçadas que lutavam entre si numa tentativa de dominar o Mundo. Contudo, nunca ninguém sentiu o apreço e a ternura da maneira como a avó sentiu quando se casou. O seu mundo era perfeito!
«Foram os meus anos de ouro!», exclama a avó agora, com os olhos vazios. Pelos mesmos olhos vi memórias a navegar. Navegavam num mar cheio de passado perdido em esporádicas lembranças, pendentes entre a fantasia e a realidade. O avô já não sai de casa, os seus dias passam pela janela ao pé da qual ele se senta e observa o nada. As suas filhas vivem longe e, embora os visitem com alguma frequência, são como memórias vagas do amor antigo que os costumava tomar como súbditos.
A casa é a mesma, o terceiro andar de um prédio vermelho, a duas ruas do centro da cidade. Os móveis são os mesmos estorvos castanhos escuros carregados de velho. A lareira permanece intacta. A sua chama não se acendeu mais.
A avó afasta desgostos nas poucas vezes que sai de casa. Os quinze gatos vadios são alimentados. Ou serão vinte? Um «Olá!» é devolvido a uma conhecida que passeia por ali.
De volta ao apartamento, o almoço é servido à uma e meia em ponto. A televisão regurgita notícias. O avô pergunta, a avó responde. Os pratos são postos para lavar, enquanto o avô ainda demora mais uma hora a acabar a refeição. A avó lembra-o dos cinco ou seis comprimidos que tem de tomar.
«Não insistas! Não estejas sempre a insistir comigo!» queixa-se o avô. «Tu precisas de comer!» responde a avó - por vezes, em vez de “comer” usa a palavra “descansar” ou “ir ao médico”. Ele não produz mais nenhum som.
Mais tarde, a avó convida o avô a dar um passeio pelos jardins. Este mantém-se de pé em frente à janela, como se procurasse uma motivação, uma alegria. O seu hesitante «Não» é acompanhado por palavras e grunhidos de desespero. «Como é que eu vim parar aqui…? A vida… A vida não presta.»
Setenta anos de existência jazem em corpos vazios de amor e cheios de memórias esquecidas, enterradas por preocupações fúteis. A alegria juvenil foi, há já muito tempo, substituída por uma melancolia monótona cuja origem lhes é desconhecida ou simplesmente ignorada. O amor, esse percursor da vida de ambos, cedeu o seu lugar a uma tolerância mútua.
                                                                                                        Inês Ferreira, Aluna de Literatura Portuguesa, 10º ano